sexta-feira, 23 de junho de 2017

insight

(ou sobre amores de uma noite só)


– Sabe do que eu mais gosto em você?

– Não sei, do quê?

– Dessa tua pinta aqui... – Afirmou levando as pontas dos dedos até o queixo dela, meio sem saber se podia mesmo bancar aquele gesto ainda clandestino, porém feito de gente que se conhece de outros tempos tantos. 

Ele sorriu (em) contentamento. Ela (se) escorreu sem expressão vigente pra declarar qualquer coisa.

– De você, sabe do que eu gosto? Mergulhou nos olhos castanhos que a secavam.

– O que eu ganho se acertar? Tentou barganhar.

– Nem que você tentasse você ia me acertar, garoto! Disse ela, fazendo um mistério desimportante.

– Sempre quero arriscar, mas dessa vez me calo pelo teu suspense.

Dois goles gelados, um trago quente depois da hora do jantar. Silêncio e olhar, vontade de rir e sair correndo pra deitar de mãos dadas no asfalto vazio dos carros, de gente a passar. Um pro outro, toda eletricidade, quarto escuro no alto de um prédio com teto pra lua, e o direito de estarem distraídos a observar a transa de luzes vermelhas e amarelas. Enfim ela anunciou:

– Eu gosto de como você arruma seus óculos, olha só que coisa mais boba!

O moço abriu um riso que foi se afrouxando, surpreso, pensando que a sua ‘interessância’ viesse das tantas coisas que contou pra ela naquela noite fria na porta do bar da vila, desacreditado de encontrar. Seu rosto se iluminou – uma frase um tanto quanto exageradamente usada em livros, entretanto, coube tão certa pra aquele momento singelo a dois.

– Mesmo? Questionou aos risos. Por quê?

– Porque eu gosto de pensar que é pra me enxergar melhor. 

Sorriram por frações de segundos e, em seguida, perigosamente ficaram sérios. Até que as mãos dele foram flutuando rumo a cintura dela, onde parecia já terem estado antes tamanha sintonia e reconhecimento sobre tecido – de algodão ou humanístico. Já os dedos da bonita da pinta foram brincar na nuca daquele homem de beleza simples, em real reencontro com um improvável bem-estar. 

De todos as viagens, bandas, móveis de madeira ou não, cachorros, gatos, signos, balas de caramelo, tiros na avenida, planos mirabolantes, cervejas geladas no balcão do bar, cigarros compartilhados na muvuca popular, aquele beijo foi o melhor dos momentos.

Meia luz, Led Zeppelin na vitrola. Era Going to California e uma explosão.

Viajaram trôpegos os dois, cada um para o seu país particular, delirando todas as vidas possíveis de ter tido e de (ainda) ter, nos planetas que conheciam e nos que nunca, nunca, nunca iriam conhecer. Voaram longe na combinação dos signos. Gêmeos e Sagitário, ar e fogo, ascendentes água e terra, e tudo explodia ao redor.

Quem sabe o que pensavam? Pelos olhos fechados, a pele dela era a erupção de um vulcão e, pelo toque das mãos, ele era o causador daquilo. Ela via os dois indo pra Califórnia, lembrando do dia em que escreveram um poema no muro de uma escola. Ele imaginava o estádio lotado com ela vestindo a camisa do seu time de coração, gritando os gols de domingo. Café, sofá, bozó, metrô, garoa, chopp, carimbó, dorflex, varal... tudo poderia dar bem certo. Todos os elementos em sintonia, até Caetano e Black Sabbath gostaram. Num minuto perdido ele exclamou: “ela gosta de Black Sabbath!” E foi fogo pra tudo quanto é lado.

De manhã, luz entrando pela janela, meias e vergonhas no chão.

Se olharam firmes, dizendo tudo aquilo pela telepatia que Rita Lee bem relatou. Não precisavam de mais nada, tinha tudo ali dentro daquele instante perfeito no quarto todo bagunçado. Estavam distraídos, Clarice Lispector decretou.

– Eu vou. 

– Cê vai, mas fica um pouco mais – lembrou da música do Chico. 

– Eu vou porque é a hora de ir. 

– Cê vai, mas tua pinta ainda é o mais gosto em você. 

– Por que?

– Porque te torna única, parecida exatamente com ninguém, só contigo pra mim.

E, num insight, se guardaram dentro de um abraço calado.

O Uber chegou. 


segunda-feira, 5 de junho de 2017

crônica da vida real


Estavam encostados no parapeito do bar com copos de cerveja nas mãos. As luzes amarelas iluminavam o lugar cheio de gente. Olhares perdidos se encontram sobre as mesas, linhas invisíveis de transmissão, música e o som alto das risadas. Ela fumava um cigarro e tragava histórias quentes. Ele olhava as árvores no escuro e contava os carros que passavam. Falavam alguma coisa sobre solidão. Diziam todo mundo estar só, inclusive os dois. Life is a lonesome struggle e contou que leu a frase aos 11 anos numa revista pra adolescentes, sem se lembrar do contexto. Abre parênteses: analisando bem, até que se pode extrair alguma coisa das publicações teenagers que não seja discas pra saber se o-garoto-está-ou-não-afim-da-garota, pura balela machista infanto-juvenil, sabemos. Fecha parênteses. E aos 11 parecia uma boa idade pra entender que viver não é pra maricas, seria necessário um pouco mais do que o horóscopo do João Bidu pra fazer qualquer coisa dar certo. Os dois ali parados, amigos com benefícios de longa data, numa contemplação silenciosa de não sei o quê, concordavam com o fato: está todo mundo sozinho no mundo. Por outro lado, dentro dos olhos teimosos dele, a certeza de que nem aquele momento valia um abraço na solidão. Balde de água pra acordar pra essa vidinha maluca. Os dois ali parados, analisando suposições, discordavam no ato. Ela dizia que às vezes, se fosse sobre sorte ou azar, seria legal encontrar quem tivesse indo pra mesma direção. Já pensou que sorte danada? Poderia ser pra direção do supermercado, do parque, do trabalho, do futuro, quem sabe? Ainda assim seria uma companhia e a solidão não teria que ser essa constante e permanente certeza massacrante every single day, don’t you think? Matutava. Tem dias, como esse com os dois no parapeito com o copo de cerveja nas mãos, em que o peso de ser mais um no mundo à procura de lar diminui uns bons quilos e dá até pra rir alto no bar iluminado cheio de gente phyna, elegante e solidária. Riram os dois na discordância e perceberam que precisam encher os copos. Foram cada um pra um lado, pensando no instante que já não havia dentro daquilo que Cazuza chamou de solidão a dois, "você diz já foi e eu concordo contigo, cê sai de perto eu penso em suicídio, mas no fundo eu nem ligo". 

segunda-feira, 22 de maio de 2017

aos vinte e oito


Aos 28 a gente se dá conta de que muitas coisas mudam no escorrer dos anos. Cabelo, pele, roupas, gostos, perspectivas, planos e prioridades, em especial. Algumas decepções já não têm o mesmo peso que tinham aos 21. Alguns sonhos ficam guardados para dar lugar a novos caminhos possíveis. Clube da Esquina canta que eles, os sonhos, não envelhecem e também acho que não. Mas aos 28 a gente começa a querer coisas reais, a querer fazer e ver acontecer. 

Aos 28 a gente já gosta muito mais de gente que liga quando diz que vai ligar do que de que quem diz coisas bonitas e as mantém no campo das suposições. Aos 28 preferimos gente disponível, disposta a correr riscos por amor, paixão, loucura e brilho nos olhos – mesmo que cansados. Aos 28 nos damos conta de que é muito mais interessante jogar na roda, abrir o peito e dizer sim ou não, quero não quero, vou não vou, já é ou já foi, do que esconder emoções. 

Aos 28 a gente não tem pressa, mas também não quer perder tempo. No emprego que já não dá tesão, nas amizades que não acrescentam, nas promessas sem ação. A verdade é que não estamos mais dispostos a aceitar qualquer oferta, qualquer conversa, qualquer sexo, qualquer carinho, qualquer coisa que for. Aos 28 a gente quer um pouco mais da vida, um pouco mais de nós e do todo ao redor.

Aos 28 a gente se dá conta da força que tem e os band aids estão aí para nos lembrar que os cortes vão cicatrizar e aquelas marcas vão ficar ali pra contar qualquer história em um futuro novinho em folha. Num livro, numa música, num desenho no céu, num rascunho no Word 2013, na brisa leve que entra pela janela do quarto. Qualquer história sobre se jogar, flutuar, voar ou nadar e morrer na praia para depois respirar feliz. 

Aos 28 começa o retorno de Saturno e provavelmente a gente ainda esteja se esforçando para se segurar naqueles anéis – e tudo bem, take your time. Com essa jornada astral, os questionamentos, as bifurcações, as transições. O que é esse tanto de tralha que a gente carrega na mala? E todos esses planos mirabolantes postos no armário? E essa vontade louca de não-sei-o-que? Bem, só precisamos saber que o Universo é amigo e não exige nada de nós, mas quer conspirar a nosso favor, desde que a gente faça o mesmo por nós. Astrologia a parte, os 28 parece uma boa hora para ajeitar os ombros e enxergar além (mesmo). 

Aos 28 as coisas simples são mais bonitas. O abraço de chegada daquele amigo que há tempos se mudou para outra cidade, a vontade de assistir um filme mesmo morrendo de sono só pra estar junto um pouco mais, a dois. O café da tarde só pra ouvir sua avó falar sobre coisas da idade e constatar que o tempo é mesmo rei, como bem disse Gil. O olhar para a rua molhada pela chuva que passou enquanto você dormia, a respiração afobada dos seus cachorros, o pelo macio dos seus gatos, uma mensagem inesperada de saudade no meio da tarde, um porre de catuaba não planejado e outras distrações que fazem a passagem por essa vida ser mais leve. 

Aos 28 a gente não quer ser o vencedor do Show do Milhão, aliás, a gente não quer vencer (UFA!). Não quer gastar saúde física e mental onde não há alegria, não quer sofrer por quem não nos quer, nem se lamentar por quem não se esforça o bastante para demonstrar que se importa. Aos 28 a gente quer que as coisas sejam de verdade, ainda que por uma noite ou pelo infinito – posto que é chama. A gente quer que o tempo caminhe de mãos dadas com aquele batuquizinho cardíaco e aquela fezinha de cruzar os dedos de que dias melhores virão. Para nós, para os nossos e para esse lugar tão quente e bonito que chamamos de lar (#FORATEMER). 

Aos 28 a gente quer continuar botando fé nas pessoas e no amor. A gente quer chorar de felicidade e rir do que não tem solução. Quer ter café quentinho, bom dia sincero e suavidade nas coisas todas. Aos 28 a gente quer ter coragem para viver os outros anos, poucos ou não, mas intensos – melhor ainda se for com o coração na mão, pulsando o ontem de caso com o amanhã, pulsando a vida toda pela frente, aos 28.

quarta-feira, 17 de maio de 2017

transição


Universo claro
Une versos largos
Pela transição
Pela conjunção
Astral
Desses dias

quarta-feira, 19 de abril de 2017

eu & elas

carta que encontrei enquanto andava tristonha por um parque em Montevideo
Eu sou a mulher que precisou ir ao ~ que chamam de ~ fundo do poço pra descobrir, no meio de tudo que me empurrou, que sempre dá pra voltar aqui pra cima, de onde dá pra enxergar, quase perto, as tantas possibilidades – gratas e grátis surpresas patrocinadas por fracassos (não tão) casuais.

Eu sou a mulher que levou porrada de tudo quanto é lado, chute, soco e arranhão. Não fisicamente, mas na pele ficaram as marcas, no peito a reação: sair chutando o pau da barraca quando necessário e revidar. Chorar, gritar, sangrar, xingar, deitar no asfalto, levantar e ajeitar esse olhar torto de dor e suor, fé e amor. 

Eu sou a mulher que ouviu não-com-força aos 5, não-com-força aos 15, não-com-força aos 22, não-com-força aos 27 e fez deles uma coleção. Mas também sou a mulher que disse não ao berro desaforado do homem-macho, não ao lamento pelas buscas frustradas, aos erros dos outros, às danças sem par.

Eu sou a mulher que se apaixonou e se jogou, mesmo com medo. Tirei o medo pra dançar minha musiquinha descompassada e ele até que gostou. Eu sou a mulher que, tantas vezes, se olhou no espelho e se sentiu horrível, ora por causa de espinhas saltitantes na testa, ora por estar com os ossos à mostra demais. Ou só por me sentir mais estranha e bizarra que o capitão américa dançando um pagode anos 90.

Eu sou a mulher que desacreditou, que perdeu a fé nesse tal do amor pra depois, só depois, ver que é feita todinha dele, seja ele a magia que for. Eu sou a mulher que sorriu quando ele chegou, que fez festa e soltou foguete sob o céu de um universo em (des)encanto e se embebedou. Eu sou a mulher que chorou na despedida e disse pra si mesma que tudo bem, que chorar estava permitido e que depois a gente podia beber as lágrimas com limão.

Eu sou a mulher que jogou todas as fichinhas na roleta maluca da vida e arriscou. Perdeu, ganhou. Que foi embora muitas vezes e que – sabe – vai outras várias se precisar. Eu sou o sim e sou não, se eu quiser – e só se eu quiser. E saio à francesa de onde não cabe meu coração acelerado.

Eu sou meu vestido curto e meu seio sem sutiã. Eu sou meus sábados à noite, minhas playlists psicos-amoróticas-deprês, meu café bem malfeito e minha refeição. Eu sou a mulher de batom vermelho, perdida na avenida, olhando a estrada amarela, sem lenço nem documento, ao som de uma malemolente canção. Eu sou a minha liberdade, a minha primeira opção.

Eu sou um pouco da minha mãe, da minha avó, das minhas tias e primas. Eu sou um pouco da Thaisa, da Angélica, da Wanessa, da Natália, da Simone, da Thalita, da Nayara, da Bruna, da Carla, da Mellaine, da Larissa, da Taynara, da Alline, da Nadja, da Janã, da Maíra, da Brunna, da Lays, da Viviane e também da estranha com olhar cansado passando pelo corredor – porque muitas vezes o cansaço dela também é o meu.

Eu sou um pouco de cada mulher que passou, ficou, abraçou, fez carinho, respeitou, entendeu. Eu sou a estridente junção de tudo que me aconteceu e de todas as mulheres que se juntaram à minha solidão, à minha felicidade e às minhas lutas (e a gente sabe que essa palavra vem sempre no plural). Eu e todas as outras. Elas e todas as eus.

Pra perceber, assim, sem 8 de março ou aniversário, que eu sou a mulher da minha vida. E que, mesmo feito uma barata tonta bipolar nesse passeio antropológico-irônico-cultural que é viver, e que, mesmo que cambaleie de vez em sempre, eu sou o meu amor.

segunda-feira, 6 de março de 2017

você apontando uma arma pra mim


Andar mais de oito mil quilômetros pra nenhum caminho me levar onde meus pés se acalmam. Queimar os olhos e o peito pelas ruas escuras procurando o que não está, teu jeito de se mostrar. Nas calçadas inacessíveis, nos muros sujos, na fumaça do cigarro que ninguém fumou. Teus olhos em algum lugar. Te encontrar numa canção antiga que bem sabemos cantar, trôpegos, lá lá lá. Sentir a ponta do teu dedo passear pelo meu nariz, teu cheiro-poesia. O vento faz carinho no meu cabelo solto, assopra no meu ouvido uma notícia de longe e flerta com a minha confusão. Numa avenida da cidade eu segui teus passos. Olhou pra trás, me sorriu um beijo e dobrou a esquina sem preocupação, liberto de toda tristeza desse nosso país. Meu corpo contra o asfalto molhado da chuva que passou, meu sorriso no chão, junto com as coisas que você deixou pra eu arrumar. Qualquer parte tua que ficou pra trás. Dança esse (descom)passo comigo? Chega perto, tem cabelo no teu olho, me veja de novo, me olha nos olhos, me beija sem dor. Me come de garfo e faca, gira a minha cabeça e desaparece comigo pra onde cabem dois. Esquecer que essa estrada não tem volta, de manhã. O sol cantando good good good is everything, nessa rota torta, talvez amor. Tão perto, tão longe, você ir comigo assim, em cada canto de onde ainda não fomos, nas cenas que não ensaiamos, nas brigas que possivelmente nunca vamos ter. Distante, meus braços dos teus, um abraço, um adeus. Pra você eu compraria coador e aprenderia a fazer um bom café. Pra nós, eu guardaria o encanto das coisas simples. Filmar o tempo, fotografar o invisível, encontrar abrigo na saudade que vem e fica, você. Rir na escuridão, sentir as pernas quentes, perder o sono, sonhar tua boca, tocar tua cor. Acordar com a vida real dando bom dia e um revólver apontado bem no coração. Acender um cigarro na varanda, regar as plantas e voltar pela mesma estrada que me leva pra onde você não está. Que tiro! 

sábado, 21 de janeiro de 2017

wild hearts


Quando ele me olhou de longe, me desconsertei em três segundos. Chegou perto, pediu isqueiro e cigarro. Choque de planetas, Mercúrio em transe, explosão. Era quinta-feira, era dezembro e o começo de alguma coisa cósmica. Me procurou na rua, na pista, no banheiro e o encontrei numa letra perdida de Belchior, num gole de cerveja. Fugimos por um caminho longo até chegar no meio da noite que amanhecia – em nós. Me cantou Belle and Sebastian, pediu pra dormir na minha casa, não deixei. Falamos sobre o sonho de toda criança brasileira antes do café da manhã numa padaria escondida na avenida e fomos embora com a garrafa do bar. Quem é você, seu cara de pau? A gente queria tudo em quatro horas, corações selvagens, dominação mundial, o mundo ao redor.

No outro dia já era um ano novo. Na rua mal iluminada, ele. A primeira pessoa antes da meia-noite. Bebi, fumei, chorei e me desesperei pelo meu coração acelerado, e lá estava ele, sorrindo depois de a festa acabar, vendo todo rímel escorrer pelo meu rosto embriagado. Cabelo nos olhos, olhos que me queimavam e me contavam qualquer mistério, ainda mais quando se fechavam.

Ele foi comigo pelas ruas da cidade ouvindo If You’re Felling Sinister como se fosse a primeira vez. No sofá da minha casa falamos sobre dores, amores e banalidades de maior importância. Como se fosse a última vez. As luzes brilhavam a situação, nós dois deitados ouvindo uma playlist mal feita por mim, discutindo sem nenhuma profundidade sobre Blue, da Joni Mitchell. Éramos dois corações perdidos que, por um momento ou mais, se sentiram em casa, um ao lado do outro, vizinhos de longa data. Estranho nos quintais, forasteiro em mim.

Então adoeci abraçada a ele, um tanto quanto dramático, eu sei, mas não seria eu se não houvesse drama. Entre beijos e catarros, um chá de limão, gengibre e mel pra me curar da tosse e do chulé, pra me botar de pé. O que me fez bem foi olhar pra ele e ver que a gentileza ainda é real e eu quis fazer o mesmo por ele todos os dias. Cuidado, carinho e um amor clandestino, pré-pago, com data de validade, mas amor.

Duvidei várias vezes da possibilidade de me apaixonar outra vez. Logo eu, toda arregaçada por sempre deixar a certeza de lado e arriscar tudo de novo com paixão. Mesmo perdida nas angústias e inquietações mais particulares que qualquer um pode ter, louca, insaciável e ansiosa, houve um momento em que me senti realmente em paz. Foi quando percebi que é possível ser feliz outra vez junto de alguém. Foram dias bonitos, estranhos, mágicos, e o que seria de mim se não houvesse magia nessas frases que me escrevem?

A magia esteve no espaço tempo entre nós, na astrologia, no cigarro compartilhado de madrugada, na fuga, no reencontro, no dia seguinte sem hora marcada, no banho de mangueira com os cachorros num sábado de manhã, na roupa amarrotada, no abraço durante o sono, no sonho com gigantes futurísticos, nos signos, nos sorrisos de manhã, nas canções de Bob Dylan e Nina Simone, já com saudades do jeito dele, no olhar silencioso cheio de medos e perigos inimagináveis. O medo e o perigo de me apaixonar pelo o que eu nunca teria. E me apaixonei, graças ao Universo, obrigada. Foi a leveza de ser o que se é, poder ser o que quiser e encontrar abrigo na piada do outro. Na piada que é a vida, que traz e leva tudo num trem invisível, deixando só a poeira sob o céu estrelado.

Duas semanas, my wild sweet love. Tomamos a última cerveja, fumamos o último cigarro. Antes, enquanto a chuva fina caía sobre nós, eu pensava na gente, no nó que ficaria na minha garganta junto com a rouquidão depois que ele entrasse naquele avião. No banco do aeroporto eu já sentia saudade e gratidão por tê-lo conhecido naquele 29 de dezembro de 2016. Dizia pra eu mesma que não. E não era não. Não era sobre tristeza, era sobre sorte. Sete bilhões de pessoas no mundo e éramos nós dois ali, rindo de qualquer coisa e se entendendo com tanta simplicidade. Era uma despedida. Voltamos ao portão de embarque. Então era isso, aquilo, que não sei se tem nome – daí a necessidade dos pronomes demonstrativos. Eu não queria dizer adeus, mas sabia que devia deixá-lo ir sem muito drama, afinal era sobre sorte e não tristeza.

Último beijo, último abraço, lá fomos nós, cada um pra uma direção e sem olhar pra trás. Descia as escadas o vendo partir e pensando se sentiria tanta saudade, se choraria quando entrasse no carro pra voltar pra cama que estávamos ainda há pouco, se nos casaríamos um dia numa praia de Porto Rico num dia de sol, se ele levaria muito tempo até esquecer de mim, se eu levaria muito tempo até esquecê-lo, se eu conseguiria dormir bem, se eu tinha trancado a casa, se choveria todo o final de semana, se ele ficaria bem longe da família, mesmo sabendo que sim. Em poucos minutos lá estava eu dentro do carro ouvindo Como 2 e 2 com Caetano sentindo aquela pontada no coração junto comigo. Eram 6h da manhã e chovia. Dentro e fora de mim.

Comigo, ficaram uma samba canção xadrez, uma orquídea, um bebê cacto, uma trilha sonora e a certeza de que arriscaria o meu peito de novo. Eu queria ter cortado partes dele pra mim, mas provavelmente seria presa por isso. Fico então com as partes que não vejo, só sinto, e que, por sentir, me fazem ser imensa, viva, quase infinita. Sem pactos, planos ou promessas. Com risadas, puxões de cabelo, mordidas e silêncios. Fomos. E em algum lugar desse universo possível ainda estamos logo ali, voltando da estrada de Chapada cantando qualquer canção tranquila como um domingo de manhã. Em algum lugar desse universo nós ainda somos. Corações perdidos, corações selvagens.



segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

valeu, 2016


Enquanto a maioria das pessoas comemora, observo as luzes coloridas piscarem do lado de fora da minha janela. Entre fogos de artifício, risadas uníssonas e Roberto Carlos, um filme começa a rodar na minha cabeça. Começo a me lembrar desse mesmo dia em 2015 e das tantas mudanças que ocorreram na minha vida de lá pra cá, 365 dias depois. Uma constatação importante me acerta: eu já não sou a mesma de um ano atrás.

Vejo a retrospectiva da minha própria vida como se estivesse assistindo a um desses noticiários de fim de ano sobre os principais acontecimentos dos últimos 12 meses. Percebo, agora, contraditoriamente diante do computador, que esse foi o pior e o melhor ano da minha vida. Como todo mundo que conheço, tomei decisões que logo se materializaram no clássico do Molejo, “Cilada”. Posso afirmar que foi uma sequência bem interessante de tombos. Mas o mais incrível é que, embora esses passos tortos tenham me machucado tanto, me sinto muito melhor hoje com as minhas cicatrizes e não as trocaria por nenhuma felicidade embalada pra viagem.

Em 2016 eu juntei toda a minha bagunça com a bagunça de outra pessoa. Me lancei nas incertezas da vida a dois e experimentei a delícia de dividir, todos os dias, a vida com alguém. Por uma série de razões, sete meses depois lá estava eu empacotando os livros, os quadros, as panelas e me despedindo dos três cachorros mais adoráveis que já tive. Foi difícil dizer adeus e partir, só com caixas de papelão e meia dúzia de plantas. Quando pensei que o medo e a tristeza me manteriam no chão, me veio a coragem e a força através de mãos amigas. Família, irmãos de caminhada, destino.

Bem, poucas pessoas sabem que neste ano eu decidi buscar pelas minhas origens. Desde as minhas lembranças mais antigas tinha vontade de conhecer meu pai biológico. Como fui criada pelos meus avós, a quem sou eternamente grata – nem cabe aqui dizer, pois eu não saberia – passei certa parte da vida imaginando como ele seria, se essas minhas características que nada se assemelham às da minha família materna seriam também características dele. Se ele teria uma pinta no queixo como a minha, se ele seria comunicativo como eu ou se teria um coração grande, como penso que tenho. Bastaram as perguntas, fui atrás de respostas. O primeiro DNA foi em 2004, quando descobri que o homem que tinha como pai desde os meus 8 anos de idade não tinha o mesmo sangue que eu. O segundo foi em 2014, após tantos anos e tantas dúvidas. Dois exames, duas decepções. Até que veio 2016 e a vontade de tentar mais uma vez.

Havia duas possibilidades, uma maior que a outra. Determinada e com o apoio da família e dos amigos mais próximos, fiz a mala e embarquei para o Paraná, onde quase nasci, onde vive parte dos meus familiares e onde estaria meu pai. Devo dizer que essa foi a experiência mais intensa que já vivi. Quando eu pensava que estaria frente a frente com o cara que me deu a vida, meu coração quase não aguentava de tanta alegria, expectativa, medo, confusão, nem sei traduzir tudo que senti naqueles meses de março, abril e maio. Estar na cidade onde passei parte da minha infância foi como voltar à década de 90 e rever minha mãe jovem, com a idade que tenho hoje, feliz. Saí da trama central da minha história e olhei toda aquela situação como forasteira de mim mesma. Tive orgulho da minha trajetória e da mulher que eu era até ali. Foi então que ali mesmo, andando sozinha pelas ruas frias e arborizadas de Alto Piquiri, que percebi que voltar àquele lugar já tinha valido a pena.

Terceiro e quarto exames feitos, só me restava esperar. E nessa espera tive a chance de conhecer um cara maravilhoso que poderia ser meu pai. Um cara que me recebeu de braços e coração abertos e me mostrou um pouco de como é ser filha de alguém. Nos abraçamos e choramos juntos, talvez pela emoção da possibilidade, pela conexão imediata e inexplicável, ou sei lá. Esse foi o outro momento que me fez ver que, às vezes, a “chegada” é só um pretexto pra gente não deixar de caminhar e se permitir descobrir, conhecer e viver o que o Universo coloca no nosso caminho.

No fim das contas, ambos os testes deram negativo e a minha busca acabou com um telefonema triste a poucos dias do meu aniversário de 27 anos. Foram conversas, abraços, ligações de amigos que não estavam aqui fisicamente, mas viveram esse momento comigo, que me fizeram voltar à realidade e retomar a vida sem tentar buscar explicações para o que acabara de acontecer.

De repente tudo mudou de novo. Eu estava sozinha, com 95 centavos na conta, um filhote de labrador pronto pra devorar o mundo, uma geladeira e um sofá numa casa branca, sem muita vida. De repente a minha vida era a minha Punky e o meu trabalho. Quando eu mais precisava, surgiu um novo desafio profissional e lá fui eu, me jogando de cabeça, como em tudo que faço ou me envolvo. Aos poucos fui me sentindo cada vez mais forte. A parede branca ganhava quadros coloridos, Punky crescia destruindo meus sapatos e plantas, trazendo vida e me ajudando dia após dia.

Era a vida ali. A minha vida, que depois de tantos aprendizados, me trouxe uma felicidade que agora eu sei que é só minha porque vem de mim e das coisas que sinto e faço. Me trouxe novos amigos, novas experiências, um novo filho de quatro patas, Sheik, e novas perspectivas e sonhos. Hoje o que sinto é gratidão por tudo que conquistei, pelas pessoas que andam comigo e por esse ano que, de tão fodido que foi, fez nascer uma nova Camila, pronta pra tudo que 2017 mandar. Obrigada, 2016.

segunda-feira, 23 de maio de 2016

aos vinte e sete

Muita gente diz que aniversário é um dia como qualquer outro, que não há nada de especial em envelhecer e talvez achar, pretensiosamente, que merece ser o centro das atenções por um dia inteiro. Pra mim, há muito tempo, a mudança de idade significa a conclusão de ciclos. É aquele momento, quase que clandestino, que qualquer pessoa se pega pensando na velocidade com a qual o tempo passa e o que está fazendo com a própria vida. Há dois dias eu tenho 27 anos... v-i-n-t-e-e-s-e-t-e fucking anos! É lindo e assustador pensar que em três anos terei 30, sendo que ainda ontem eu era só uma menina assustada que sonhava em mudar o mundo.

E é exatamente isso que me faz morder os lábios e mergulhar em tudo que vivi até aqui. As lições que aprendi quando criança, as pessoas que mudaram, os amores que passaram, os amigos que se foram, as festas que amanheceram, as noites de porres que prometiam serem os últimos, as viagens que custaram a grana que eu não tinha, as vontades e desejos que me impulsionaram a andar pra frente, as coisas que conquistei e também as que perdi, ou me livrei, vai saber, né?!

De tudo isso, sinto que ficaram pedaços meus por toda parte, como se eu tivesse ido com tudo que já se foi. Ainda estou em algum lugar do tempo, como naquele dia que minha mãe chegou do trabalho e me acordou no meio da noite pra me dar uma barra de chocolate em formato de gato, pois era esse o jeito que ela tinha de me agradar, e conseguia. Ou como no dia que ela foi embora pra longe. Ainda estou andando pelas ruas antigas de Alto Piquiri cantando uma música do Skank com amiguinhos que nunca mais vi. Eu sei que eu fui junto com todos os amigos de infância e adolescência que, de alguma forma, me tocaram a alma, e eu sei que há pedaços de mim em cada paisagem bonita que vi nas estradas pelas quais passei, olhando da janela o sol nascer, ou observando o encantamento de estrelas distantes ao imaginar, infantilmente, que elas pudessem me ouvir. 

Ora me sinto tão nova, ora tão cansada. Só eu sei do que foi preciso pra estar aqui. Não me sinto diferente das outras pessoas que se esforçam diariamente para garantir a manutenção da casa, da família e de si próprias. Sempre soube que cada coração é um universo e eu sou só mais um pulsando no mundo, ao mesmo tempo em que compreendo que o que bate aqui dentro tem o poder de influenciar alguma coisa lá fora. O que passa por mim volta de alguma maneira para quem está ao meu redor. Isso me faz crer que tenho uma responsabilidade que vai muito além. Essa maturidade, se é que posso classificar assim, veio com o que vi, vivi e senti até esses 27 anos. Sei que ainda é pouco perto do que eu quero e acredito que ainda vou aprender no futuro. 

Esse aniversário está sendo diferente de todos os outros. Só nos últimos dois meses acho que envelheci uns cinco anos. Mas também acho que ganhei uma força que não tinha antes da minha vida desabar por um dia inteiro. Tenho sentido que buscar minhas origens tem se tornado uma espécie de necessidade que veio com a nova idade. Lembro de mim tão pequena que não sabia nem mesmo andar de bicicleta, mas sabia que queria entender melhor quem eu era... tão pequena e eu já queria isso.

A vontade de desvendar essa parte da minha história, de mim, era a minha principal bandeira, minha batalha, meu grito de socorro e parece que quanto mais eu corri atrás disso, mais distanciaram-se as respostas. No meio dessa procura alguém me disse que as perguntas sempre vão existir e que, na verdade, devo prestar atenção nisso, pois são elas que me levam adiante. Talvez eu não saiba entender bem isso agora ou nem mesmo quando estiver com 37 anos. Talvez eu nunca consiga e, honestamente, por hora tanto faz. 

Cheguei aos 27 com orgulho da mulher que me tornei, mas não vou dizer que sou completa porque isso eu nunca fui. Fui quebrada várias vezes e nem mesmo isso me fez desistir de querer ser a pessoa que sou e nem da que ainda quero ser. Deixei muitos pedaços meus pelo caminho e, nessa desventura, encontrei muitos outros. Estou juntando um a um, vai ver eu me completo com as partes perdidas dos outros. Acho que é isso, essas sensações desconsertadas que quase queimam o peito, que me mantém, que me fazem abrir os olhos, questionar, sonhar. É o que me faz querer ir além de onde posso enxergar só pra saber o que me espera no final dessa incrível e emocionante jornada que é a vida.